23 de Outubro de 2011

É o amor que nos salva da vida



ainda acreditamos que o dinheiro nos salva da vida
que a eternidade se distende na armani das coisas
como um fato às riscas que ilude o peso da morte

ainda continuamos à espera que o amor venha em latas
em pacotes ou cuvetes dispostas mesmo ao lado da pizza

que a felicidade se arredonda em cinco bolas e duas estrelas
ou em bónus de natal que depois teremos de gastar sozinhos

ainda acreditamos que o sonho é um jogo fácil de crianças
que é apenas um artefacto que geppetto se esqueceu na árvore
assim que se dedicou a esculpir todos os adultos

mas na verdade
sim
na verdade verdadinha
apenas o amor nos salva da vida

e no fundo

todos sabemos disso

(e fica sabendo meu amor
que é às tuas mãos
que a minha acontece)

10 de Julho de 2011

(Nosso) Amar

foto de minha autoria


sei que o amor é a mão que me prende à vida
que é a alma exacta do silêncio antes da primeira palavra
do primeiro sonho do primeiro camembert na boca
do primeiro acorde do violoncelo com que envelhecemos

e sei que o tempo dirá que fomos a escolha mais acertada
que a eternidade se desmitificou ao nosso primeiro orgasmo
como uma hortênsia perfeita no meandro do poema

ou como um abraço bem apertadinho em plena tristeza
que nos faz saber que não há nada mais necessário
que o nosso amor

23 de Junho de 2011

Sou feliz...


foto de minha autoria



poderia simplesmente envelhecer
ouvindo o silêncio das coisas

do amor recrescendo na saliva do sonho
do abraço enxertado à transparência das flores
ou do clímax da quietude no cobre dos candeeiros

um chá quente de jasmin que nos mata a tristeza
aaaaahhhhh

tenho pouco
por vezes só um poema exsudado dos dedos
ou uma árvore de jazz crescendo no vazio

porém
tenho tudo quanto vejo
e tudo quanto sonho
enquanto ainda souber
olhar para mim

foto de minha autoria


falar-se-á do homem que imagina o seu próprio esquecimento
como uma arritmada saudade ou melancolia tocada ao xilofone
num dia em que as rosas morrem à saliva da boca pronunciando o teu nome

falar-se-á do homem que rastejou pelos campos que se souberam rosas
que bebeu o perfume do azevinho ainda no outonal baunilhado da semente
como incenso queimado à beira do riacho do estômago onde pulsa o coração

porque enquanto o poema desce a caneta o tempo percorre os nossos ossos
e a solidão é sempre uma faca apontada para dentro no silêncio da noite
e a noite é o movimento severo do espinho que atravessa a garganta dos dias

e às vezes é mais fácil morrer daqui para a frente e acabar na pálpebra do sonho
é mais fácil arder na menstruação das cadeiras que pendem à sombra dos ombros
do que aguardar na fosforescência das janelas que deixámos abertas para dentro

foto de minha autoria


 
apenas um pouco deste sonho
deste sincero coração de silêncio
para que não me sinta pensar

e daí
(numa vaga que enche o caderno de poemas)

o buffet da metrópole não cheira a cansaço
há bicicletas de semana e o tempo é outro
e as árvores envelhecem ao contrário

como se num estúpido e efémero instante
as orquídeas te roubassem o pólen aos lábios
e o poisassem nas coisas difíceis do mundo

deixando semi-pender a ideia
que poderá haver algo mais na vida
para além do nosso amor

(ainda assim
custa-me a acreditar)